Via  Láctea  FM

       

        É difícil a arte da escolha! Pessoal e subjetivo! Escolher entre tantos versos já escritos implica em conhecê-los - o que é extenuante, embora gratificante -  e entendê-los. Apreciá-los, depende muito da atenção e do estado de espírito em que a gente se encontra. Às vezes, o belo esconde-se atrás de palavras e pensamentos muito simples que nem sempre são percebidos espontaneamente, em primeira leitura. A simplicidade de “Alguma coisa acontece no meu coração, que só quando cruzo a Ipiranga e a Avenida São João”, da canção “Sampa” de Caetano Veloso, considerada por alguns como a mais bela exaltação à cidade de São Paulo, não é a todos que toca, mas, com certeza, àqueles que ali viveram em tempos de “Os Mutantes”. Outras vezes, a beleza escancara-se já no tema das canções. Geraldo Vandré mostrou a que veio naquele festival (tempos conturbados!), usando o verbo para combater a violência em “Pra não dizer que não falei de flores”.


         Nem sempre é fácil compreender as mensagens dos autores. Muitas vezes, há histórias não reveladas, justificando-as e esclarecendo-as, como em “Debaixo dos caracóis”, de Roberto Carlos, à qual Caetano Veloso deu vida nova, em sua interpretação posterior. Felizes aqueles que podem conviver no meio artístico, em proximidade com autores e compositores, conseguindo, assim, melhor compreensão de suas obras. Um deles foi Paulo Mendes Campos, cronista mineiro (1922/1991), em cujo trabalho esta página se inspirou. Conta ele que Manuel Bandeira talvez elegesse “Tu pisavas os astros distraída”, de Orestes Barbosa, caso participasse de um concurso para apurar o mais belo verso de nossa língua. Na verdade, toda a “Chão de estrelas” é composta por versos iluminados:


“Nossas roupas, comuns, dependuradas

Na corda, qual bandeiras agitadas,

Parecia um estranho festival

Festa dos nossos trapos coloridos

A mostrar que nos morros mal vestidos

É sempre feriado nacional"

 

       A proposta de garimpar versos através do cancioneiro popular é atraente e seus limites são desconhecidos. Felizmente, porque, assim, essa tarefa ? gratificante e envolvente ? será interminável. A todos aqueles que apreciem versos, fica aqui um convite para que participe dessa pesquisa, sugerindo versos e indicando suas fontes.

 

“Tu pisavas os astros distraída"


 (em “Chão de estrelas”, de Orestes Barbosa)

 

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“Calça branca de riscado,

Paletó de linho branco

Que até o mês passado

Lá no campo ainda era flor”


(em “Velas do Mucuripe”, de Fagner)

 

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"Minha rua é sem graça

Mas quando por ela passa

Seu vulto que me seduz

A ruazinha modesta

É uma paisagem de festa

É uma cascata de luz"


(Em “Deusa da minha rua”, de Newton Teixeira e Jorge Faraj)

 

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"e o verde mar que se debruça na alva areia a espumejar

E a noite que soluça e faz a lua soluçar

E a estrela Dalva e a estrela vésper languescente

 Bastam somente para os bardos inspirar" 


(Em “Talento e formosura”, de Catullo da Paixão Cearense e Edmundo Otávio Ferreira)


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"E após a morte profanar-te a formosura

Dos teus encantos mais ninguém se lembrará

Mas quando Deus fechar meus olhos sonhadores

Serei lembrado pelos bardos trovadores

Que os versos meus hão de na lira em magos tons gemer

E eu morto embora nas canções hei de viver"


(Em “Talento e formosura”, de Catullo da Paixão Cearense e Edmundo Otávio Ferreira)


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“As estrelas cintilantes

São lanternas dos amantes

Pelo espaço a flutuar

Como Deus é inspirado

Inventou para o pecado

Estas noites de luar”

 

(em “Dileta”, de Cândido das Neves)


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"Dileta

Tu formosa, eu poeta,

A minh'alma vaga incerta

À procura dos teus beijos"

 

(em “Dileta”, de Cândido das Neves)

 

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"na vida, quem perde o telhado

Em troca, recebe as estrelas"

 

(em “Só Solidão”, de Tom Zé)

 

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"Tire esse sorriso do caminho

Que eu quero passar com a minha dor"

 

(em “A flor e o espinho”, de Nelson Cavaquinho, Guilherme de Brito e Alcides Caminha)


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"Eu pus os meus pés no riacho

E acho que nunca os tirei"


(em "Força estranha", de Caetano Veloso)


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"A vida é a arte do encontro

Embora haja tanto desencontro pela vida"


(em "Samba da bênção", de Vinicius de Moraes e Baden Powell)


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"Penso que cumprir a vida seja simplesmente
Compreender a marcha e ir tocando em frente
Como um velho boiadeiro levando a boiada
Eu vou tocando dias pela longa estrada eu vou
Estrada eu sou"


(em "Tocando em frente", de Renato Teixeira)